Fogo no circo

Dessa vez, eu queria mesmo é ter escrito um poema, mas não é simplesmente por vontade que se escreve, mas por necessidade.

Nos anúncios, nos cartazes, em tudo: equilibrio. A palavra do século XXI, de um milhão de reais, o segredo para a felicidade. Coma com equilíbrio, beba com equilibro, viva com equilíbrio, relacione-se com equilíbrio. “Querida moderação, nunca seremos amigas, é uma questão de incompatibilidade. Beijos (muitos!). Assinado: Eu.”

Não sei se é uma falta de disciplina, de caráter, de ”força de vontade”, mas nunca me dei bem com dietas, rotinas, planos. Com algumas coisas até que me acostumei, vou à escola há dez anos, diariamente. Apesar disso, ainda não aprendi a gostar de ter que seguir os planos de estudo, os conteúdos, as repetições. Que coisa! Também não me sinto mais inteligente que na quarta série, só percebo maior quantidade de informações em minha cabeça e adaptação maior as regras.

Talvez, mais pra frente, com um certo amadurecimento, eu mude de ideia e diga que a ordem regular de acontecimentos é mesmo o caminho para a perfeição. Não duvido que seja, mas, para mim, hoje, não é eficaz.

Desculpo-me se meus pensamentos são frutos da idade, das vontades e essas coisas, mas estou perdidamente apaixonada pelo intenso! Afinal, a diversão da corda bamba está nas acrobacias e não em simplesmente não cair. Acredito ser muito necessário (e moral) ter consciência de que somos responsáveis por quase tudo que acontece em nossas vidas e assim basear as nossas atitudes. Por isso, não acho ideal adotar, pretensiosamente, uma rotina rígida para alcançar algum objetivo. Muito se ganha com planos pré-estabelecidos, mas muito se perde também.

Corre-se o risco de passar por momentos importantes, dias felizes, prazerosos e marcantes por um objetivo não tão justo assim (segundo as minhas medidas). Oras, o maior objetivo tem que ser viver! Equilíbrio, então, nada tem a ver com quantidades medidas, como tenho ouvido, mas com o controle sobre as próprias vontades em relação ao que é bom para si e para outros. Penso no fim da vida com um tchau demorado a tudo que fiz, mas somos tão vulneráveis que não haver tempo para despedidas.

Sim, as vezes ajo de forma diferente da que penso, mas eu me perdoo com a condição de nunca mais me ferir (mesmo que seja dificil beirando o impossivel), pois as reflexões são sinceras. As atitudes também são fruto da liberdade apesar de por vezes impulsivas, mundanas, carnais, frívolas e tudo de pejorativo que houver. Sinto-me livre para a diversão, mas é preciso habilidade, como artistas circenses: tentativa e erro, até atingir a prática. A grande piada do palhaço equilibrado na bola é o risco de ele cair.

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

  • Cecilia Meireles

 

 

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5 comentários sobre “Fogo no circo

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