Novo poste

Viver é caminhar no escuro, não se vê um metro a frente. Quando pensa-se estar num túnel, está-se num campo verde limpo. Quando pensa-se estar entre flores, está-se entre venenosas plantas. Medimos a vida pelo tato, então? Tão débeis são os outros sentidos quando trata-se de entender o espaço que habitamos e as consequências do que temos feito.

O tato é o sinônimo da vida. Se nem um outro sentido tivessemos a não ser o tato, ainda assim estaríamos condenado às penas e glórias da existencia. Sentir implica decidir e é isso que estamos fazendo: andando, inevitavelmente, e, como sinal de que estamos aqui, pensamos conhecer o ambiente onde estamos.

Entre a estrela e a cruz, andamos primeiro no colo, depois de mãos dadas, então queremos correr. Corremos e percebemos que continuamos acompanhados. Chega! Não quero mais esse caminho. Sozinhos, então. Desde o principio, no escuro. Por isso foi que Deus disse: faça-se a luz, pois agora, um guia. Encantados com essa sensação de êxtase que é o amor, o apaixonar-se, o encontrar-se, estamos sujeitos a nos perdermos. Está aí: amar é abdicar do direito de escolher para onde ir.

É impossível não continuar andando, então, entre buracos, tuneis, campos, flores, venenos, descidas, subidas, montanhas, praias, florestas e quaisquer paisagens imagináveis, subitamente chegamos ao nosso destino. A vida nos prepara para a morte: as alegrias, as doenças, as mazelas, os medos; mas, principalmente, aprendemos a decidir: a lutar contra as ameaças, desviar de barreiras e também aceitar o que parece bom. Tudo isso usando apenas o tato.

Há uma teoria: quando chegarmos ao fim, vai haver uma cortina, atrás dela, uma plateia. Estarão esperando por cada um, particularmente. São os juízes. Se baterem palmas é porque sabem que conseguimos aguçar nossas sensações e estaremos aprovados. Se vaiarem, somos surdos, não poderemos ouvir e por isso nos sentiremos sozinhos. Nos jogaremos do palco.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente – Vinicius de Moraes, Soneto da Separação

 

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4 comentários sobre “Novo poste

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