Progresso

Tenho pensado constantemente sobre a administração eficaz das vinte e quatro horas que nos são dadas. A vida é muito longa muito e muito curta ao mesmo tempo, são medidas inexatas, baseadas por meio de comparação. Para se dedicar a uma ideia, uma vida inteira pode ser muito, mas perto da idade do universo, uma vida humana não é nada!

De algumas maneiras conseguimos fazer o tempo parar para as nossas sensações.

 

Breve pausa. Suspiro.

 

Quando estamos apaixonados, por exemplo, perde-se totalmente a noção de tempo e espaço. Acontece que é necessário viver todos os dias, em momentos bons ou ruins: confirmar decisões, cumprir obrigações, atender a prazos, acatar a ordens e, no meio disso, contemplar.

Como descobrir prazer, então, no meio das cartilhas? Temos o péssimo hábito de imaginar que ”as coisas simplesmente acontecem”. Oras, isso é lógico, o mundo está em movimento, coisas acontecem. Contudo, digo que não pode-se ficar a mercê do acaso, do qualquer hora, do repentinamente. Há casos absurdos de pessoas que se colocam como vítimas das oportunidades que não lhes aparece. Não é necessário estar insatisfeito para alcançar algum progresso, só é mais comum que quando estamos desconfortáveis, buscamos mudanças, é  um instinto.

A beleza, a graça, a diversão e o maravilhoso das coisas, estão, geralmente, nos olhos de quem vê. Não me refiro às situações perigosas, abusivas, desumanas as quais muita gente é submetida, mas ao crescente número de pessoas comuns, sem problemas que possam colocar em risco sua dignidade, índole, conforto físico e emocional, sentindo-se cada vez menos motivadas a aproveitarem sua existência, tão única.

É preciso, em meio de pensamentos rápidos, conclusões precipitadas, opiniões pré-formuladas, ter paciência com o relógio e assumir que somos, principalmente, frutos do nosso passado, e a parcela de penas dos erros de outrem que carregamos, é mínima e pode ser superada.

Tentar “ver as coisas com outros olhos” nao é tarefa fácil, ao contrário, um desafio. Talvez como aprender um novo idioma, tocar um instrumento. A melhor parte em lapidar as opiniões está em suas consequências, tao eficazes para o crescimento do amor e da paciência para conosco e para com os outros.

Não vou repetir um clichê motivacional dizendo que todo dia deve ser um novo dia, e nem inventar uma nova frase, mas, se você está nesse parágrafo, tirou uma pequena parcela desta hora para dedicar a si (seja por curiosidade, vontade de ler ou qualquer motivo inimaginável para mim). Fico feliz. Escrevendo, também dediquei certo tempo e, fique dito, se esse for meu ultimo texto (cada minuto a frente é um milagre!) estarei realizada de tê-lo escrito. Sem pieguices, o que quero dizer, é:

É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade –  ‘Sentimento do Mundo’

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s