Fracasso

Quantos objetivos as pessoas têm! E que importante tê-los. Se não tê-los, como sabê-los?

 

É preciso, sem dúvida, estipular metas a serem cumpridas. É preciso acreditar, renovar, aceitar e todas as outras coisas que se encaixam perfeitamente em mensagens de fim de ano. Infelizmente, nem sempre vencemos e cumprimos as propostas que eram símbolos de felicidade e prazer. Pobres daqueles que depositaram toda sua esperança em alguma ideia que não saiu da cabeça ou fracassou quando tornou-se matéria/atitude. Aí, derrota. ”É a vida!”

O que há de bom em cair? Em desistir em um momento de fraqueza e precisar dos frutos da conquista tempos depois? O que há de bom em ”ter que se conformar”? Nada. Nadinha. Nadica de nada. Nada de bom. A gente é que é otimista e aprende com os erros, mas nada como a ingenua esperança da primeira tentativa.

Não faria um texto desanimador apenas narrando sensações. Para isso serve a MPB, o sertanejo. O que quero dizer é: o que é perder, afinal? Perder em que?  Quem venceu, então?

Concordo que é muito importante passar no vestibular, emagrecer para o verão, ser promovido, conquistar uma pessoa,  viajar pra tal lugar ou qualquer coisa do gênero, mas é de praxe que as coisas são feitas aos poucos. Antes, é preciso vencer um dia de estudo, vencer um bolo de chocolate, vencer uma tarefa no trabalho, vencer o defeito de outrem, vencer as fronteiras do bairro e vencer qualquer insignificante de longe, mas insuperável de perto. É preciso lutar todos os dias, diz-se por aí. Por isso é que dormimos e acordamos.

Outro ponto importante é como um objetivo comum sempre é um objetivo notável. Qual a diferença entre uma pessoa que consegue falar um novo idioma e alguém que entrou numa faculdade se ambos estudaram um ano inteiro, disciplinadamente, para isso? O valor das coisas desejadas só deve ser determinado por quem deseja. Pode ser pequeno, grande, decisivo ou não. E também dá pra mudar de ideia a qualquer momento. Por isso é que dormimos e acordamos².

Talvez tenha-se a impressão de que há um limite de quanto podemos nos alegrar pelas conquistas de outras pessoas. Ha datas estipuladas para os cumprimentos.

Não somos cem por cento responsáveis pelas coisas que nos acontecem, apenas noventa e nove. Certamente não entrarei naqueles méritos de causa e consequência, pois tenho a ilusão de que é óbvio que toda atitude dá algum fruto. Bom ou ruim, a curto ou longo prazo. É lembrete de Física: TODA ação causa uma reação. Não é lógico viver de uma coleção de atitudes rápidas e impulsivas, pois geralmente ocasionam lembranças não tão ligeiras (e boas) assim. Vale pensar que, na vida, não fazer nada também dá frutos (é quando o zero soma).

Tenho a impressão de que quando tenho uma vontade muito grande, meu corpo vai mecanizar atitudes que me levarão, imperceptivelmente, até meu objetivo. Escrevendo, parece absurdo, mas é uma ideia que cultivo com muito carinho em minha cabeça.

Sei que um perdedor falar de conquistas não motiva ninguém, por isso deixo aqui relatos inspiradores: pensei que eu não pudesse escrever alguma coisa hoje, que nada sairia, e estou no ultimo paragrafo de um texto inédito! Também preenchi cinquenta cupons para uma promoção. Achei até que fossem cem, mas eu os venci, porque estavam em desvantagem. Ah, meus amigos papeizinhos, eu estava esperando o dobro de voces! Estão devidamente preenchidos, todinhos. Vitória!

 

Poema em linha reta – Fernando Pessoa

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

 

 

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