Nojo!

O sentimento de repulsa é um dos mais nocivos que existem (para quem o sente). Eis o grande problema dos sentimentos, especificamente os ruins: não podemos transferir o peso dele para quem o provoca.
A raiva, o medo, a mágoa, o rancor, a indignação, a tristeza, a decepção… Palavras pesadas, que fazem o tempo passar rápido demais enquanto passa devagar. Quem carrega no coração um sentimento assim, quase que não consegue esconder, pois mesmo que tenha momentos alegres ou relações relativamente estáveis e confiáveis, há um espinho, grande ou pequeno, que sangrará a qualquer movimento.
Ler um texto de alguém muito leigo sobre males tão grandes, sem conhecimentos (científicos e pessoais) em áreas de afetividade e relações humanas pode parecer um desperdício de tempo. Minhas sinceras desculpas, mas esse é um texto baseado somente na premissa da poesia: a observação!
Está aí: sofremos porque temos um instinto de justiça que exige punir os culpados das sensações ruins que temos de lidar diariamente. Daí alguns se veem súditos de Nabucodonosor e se dão o direito de agredir moral e físicamente aquele que lhe tirou a paz e, não raro, apesar de desumano, tirar a vida do seu ”agressor”. O mais comum é que se guarde esses sentimentos e cultive-os como plantinhas venenosas que crescem e machucam o coração com seus espinhos afiados. Apesar disso, é verdade, se não regadas e adubadas, o tempo trata de fazer com que as sementes não geminem e morram.
Cada vez mais as pessoas dão muito valor a si mesmas, como se o mundo tivesse esperado por elas para fazê-las felizes. Ingenuidade absurda, mas real. Nós, e apenas nós, somos responsáveis pelo que sentimos. Mesmo que as vezes as situações ruins nos encontrem sem a termos procurado, somos responsáveis pela resposta que daremos a ela.
Todos os sentimentos ruins podem se tornar, mais cedo ou mais tarde, coisas boas. Para isso, porém, é preciso que nós não sentemos e esperemos que, repentinamente, as coisas mudem. É preciso coragem e isso também está dentro de nós. Coragens pequenas, como aquela de encarar uma manhã fria de trabalho e coragens grandes, como superar traições, medos, vontades improdutivas. Simultaneamente, é preciso paciência. Esperar que o efeito das emoções passe e fique só a marolinha da razão, que nos permite tomar decisões não impulsivas e mal pensadas.
Não poderia deixar de lembrar de Jesus Cristo, homem que, Deus, assumiu a culpa de seus agressores e a injustiça do que lhe fizeram, transformou em justiça. A seu exemplo e a partir dele, aprendemos o que significa amar.
Para os incrédulos, ainda resta a vontade de estar em paz e é impossivel controlar o aperto no coração ao lembrar de determinada situação sem praticar o perdão, mesmo que não religioso. Não falo, entretanto, somente de perdão, mas também da consciência da miséria que é o ser humano e na capacidade que temos de também fazer coisas ruins. O discurso de ”não mereço” é muito delicado. Perdoar é entender que aquele que errou é um semelhante, e isso não quer dizer esquecer o seu erro, mas suportar, mesmo que sem aceitar.
Falo, então, sobre coisas corriqueiras. Àqueles que lidam com pesos de tragédias e crueldades, é preciso quadruplicar os ingredientes: coragem, perdão, paciência… Acredito que, com Deus, com Suas graças, os sofrimentos não esmagam o homem.

Depois de tudo isso, venho explicar que entre os sentimentos ruins pensei em colocar a saudade, mas ela é um exemplo de que sentimentos doloridos não vêm apenas com coisas ruins… Saudade é a prova de que um dia aceitamos nossa pequenez e nos dispusemos a aceitar a de outrem, como deveriamos fazer em todas as situações de relacionamento.

 “O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.” João Cabral de Melo Neto

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