Mérito

   Pronomes possessivos: meu, teu, seu, nosso, vosso, nossos. Sim, todas as coisas têm um proprietário, quem desses seis?  

Já há algum tempo percebi que sou uma só e nunca poderei ser outra. Escrevi até um poema sobre uma sensação de estar aprisionada a um corpo, um gênio, a características, boas e ruins, que trago no sangue, carregando meus antepassados.

Acontece que, nisso, me perdi. Somos, sim, versões limitadas, mas não somos a causa de existencia do planeta. Foi dolorido, mas descobri que o mundo não gira em torno do meu umbigo. Patético? Na teoria, sim, mas na prática parece irremediável.

Isso é algo tão intimo, e tão recente, que mal sei como falar a respeito sem que o leitor não se sinta meu psicanalista.

Há um bicho, um parasita de amor. Não sei seu nome, mas é cruel. Faz a gente se sentir especial de uma forma muitissimo arrogante. Acontece que ele não poupa dos sentimentos ruins, passa desapercebido porque as vezes sentimos insegurança, medo, vergonha… Isso é propaganda enganosa, desculpa para o alimento do monstreco não acabar, para não o notarmos e lutarmos contra ele.

Existe um discurso que o bicho faz a gente falar: ”Eu tenho esses defeitos, mas eu também tenho essas qualidades”; ”Sou totalmente honesto comigo mesmo, sei que tenho tais defeitos e tais qualidades”; ”Tenho tais talentos, sei que não levo jeito para certas coisas, mas tem essas duas ou tres que eu nasci pra fazer (de olhos fechados)”. Mentira. Bobagem. Sabe aquele: conhece-te, aceita-te, supera-te? Não tem nada a ver com isso.

Conhecer-se é perceber que somos nada. Miseraveis.

Pensei que existisse essa equação: defeitos + qualidades + habitos². intenções =euzinha.

Foi doloroso descobrir que há pessoas melhores que eu em tudo. Todos os talentos que eu pensei ter: bobagem! Não sou tão boa nisso. Todas as qualidades que eu via em mim: bobagem! Não sou tão boa ssim. Meus defeitos: enormes! Eu? Com esses defeitos? Eu? Minhas intenções: gananciosas.

De repente tudo mudou de cor. Como esses amigos vieram parar aqui? Como assim minha familia se sacrifica por mim? Essas coisas que uso: por que são minhas? A maior queda foi pensar em Deus. Ele ainda não desistiu de mim, mesmo quando pensei não precisar Dele. Que angústia, que peso! Achei que saber para onde ir era o suficiente para chegar até lá. Achei que merecesse o prêmio por saber que posso tê-lo.

Nada mereço, nada sou. Sou só mais um. A minha particularidade está na liberdade que tenho de caminhar ou não. Além do mais, o que fiz de certo para receber amor das pessoas que me cercam? Achei que os tinha conquistado. Não. O amor não pede nada. Como posso agradecê-los por cuidar de uma criatura tão errônea como eu? Amando-os. Ao contrário, como posso culpar os que não gostam de mim, se não mereço seu amor? Não posso.

Não tem sido fácil. O insetinho, que é a minha soberba, o meu orgulho, virou fera, avança, ataca. Diz que não quer sair, faz-me rugir com os outros, pisá-los e ignorá-los. Apesar disso, luto. Canso, mas volto a lutar, se só um de nós dois há de viver, serei eu, pois sou a unica versão de mim. A consciencia, afinal, é a carta de alforria da infinita miséria da existência.

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