Valsinha

Há música nomeada com o título do post, e ela diz assim:

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.

-Chico Buarque

Tenho ouvido muitas vezes essa canção recentemente, mas não quero escrever, hoje, sobre danças, amor, mpb, cantores esquerdistas ou qualquer coisa óbvia ao ler essa citação.

À cabeça me veio uma pergunta que suporta muitas respostas, mas nenhuma, ainda, me satisfez: é possível que um momento bom faça um outro momento bom, que aconteceu antes, ficar menor no coração? Respondendo sem muito pensar, diria que sim! É a famosa ”cura” do tempo, não? Apesar disso, há muitos poréns, como a intensidade do momento, a companhia, o quanto marcou naquela fase da vida… Para  a paz de minhas lembranças, juro a mim mesma, de pés juntos, que esquecer momentos é muito possível e acontece com todas as pessoas, mesmo com as que mais amei: fui esquecida e isso é muito natural, sim. Só que lá no fundo do coração, onde a beleza vive em paz, sem critérios, estão as canções sobre pessoas inesquecíveis, sobre nunca esquecer ou superar um amor, sobre os filmes onde as almas apaixonadas não sossegam.

Eis um grande problema: como buscar a felicidade, se não nos lembramos de como é ser feliz? Bem, não podemos ter saudade de algo que esquecemos. As vezes, sinto como se estivessemos mergulhando num oceano de melancolia e a superficie estivesse cada vez mais longe. É muito comum cair do barco, as vezes, afogar-se, nadar, voltar ao barco. Principalmente nas tempestades. E quando está-se imerso na agua? Quando nem se vê mais o barco? Quando vive-se no mar tranquilamente, como se não respirar fosse o natural? E, pior, quando o esforço é vão? Nada, nada, nada e nada! Então a terra firme é só um conto da carochinha. Ninguém que está aqui nesse mar ouviu falar de lá. A realidade é essa: o fundo do mar. Há até prazeres aqui. Então alguns começam a se jogar dos barcos. Os especialistas preveem que os barcos já não navegarão dez metros do porto dentro de alguns anos. Que loucura.

Não pode ser só mar. Quero respirar, por isso estou morrendo, quero oxigênio. É preciso mais que submarinos e escafandros. Quero a luz do Sol, a pele dourada. Isso sim é viver: o movimento do barco.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Não. É preciso navegar, porque é preciso viver.

 

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