Heterônimo, não.

Quase nunca sabe-se como expressar os sentimentos. Outros sabem, deixo que falem por mim. Fale Drummond. Adélia Prado. Augusto dos Anjos. Fernando Pessoa. Allan Poe. Quintana. Manoel de Barros. Vinicius de Moraes. Cecília Meireles. Guimarães Rosa. João Cabral de Melo Neto. Mário de Andrade. Veríssimo. Leminski…

A poesia é isso: temporariamente não ter um nome, uma história, medos ou vontades. Ser, por segundos, semanas, semestres ou séculos, apenas algumas estrofes, sem o peso da existência.

Hoje me escondo debaixo desse Drummond:

 

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam, .
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

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