Indiscreta finalidade

Vou direto ao ponto: nunca me dei bem com ”siga seus sonhos’, ”confie nos seus sonhos” etc. Não é um problema nas frases, mas uma questão entre o nosso relacionamento, a concordância entre mim e elas.

Se eu tivesse um grande sonho, vá lá, um pequeno que fosse, as expressões relacionadas a conquistá-lo fariam sentido. Coloco meus ”sonhos” em patamar de desejo, de objetivo. Isso não torna os ensejos tangíveis, pelo contrário, dizer que algo é um sonho faz com que pareça mais difícil e incite mais esforço. A primeira coisa que me vem à cabeça quando penso em um sonho meu, algo humanamente impossível, é voar. Meu sonho é voar. Minha consciência coberta por frases de efeito responde: oh, estude, se esforce, invente, crie e faça esse sonho possível!!! Bem… É… Não, deixa quieto. Que fique claro, meu desânimo com essa sugestão não é falta de vontade de voar, não. Seria o máximo.

Há quem sonhe com bens materiais, com algum evento, com alguma pessoa, alguma situação, algum cargo, mas nada que pareça possível me soa como um ”sonho”. Sempre acaba ficando na linha das ”metas a longo prazo”, por mais tortuoso que seja o caminho.

Apesar disso tudo, há também o inverso: não ter sonho algum. Nem os possíveis, nem os impossíveis. Isso é o pior. Não almejar nada é a perda do sentido da vida. O que é uma vida sem um sentido? Mesmo que intrínseco ao cotidiano, é preciso que se tenha amor às coisas que se faz, se não, faz-se da vida uma tediosa espera pela morte.

Sonhar, afinal, é ver alegria em alguma coisa. Ver amor em alguma coisa. Ver coisas boas em alguma coisa. É inspirar-se, e, independentemente de como isso seja denominado na vida de cada um, é preciso que exista. E, muito menos óbvio que tudo isso, é importante que valha a pena.

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente – Vinicius de Moraes

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2 comentários sobre “Indiscreta finalidade

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