Confissão

Quanta bondade em chamar-me “mulher”

Agora, porém, descobri minha natureza:

Selvagem da mais baixa espécie -e não qualquer-

Bicho imundo, fera ardilosa, perverso homem odiador da Beleza.

 

Devoramos uns aos outros legalmente

Esfolamo-nos e lambemos as chagas que talhamos

O que é verdadeiro não importa a nenhum vivente

Não se saude o que passou, o presente aniquilado.

 

O jogo dos olhos faceiros, a audição perturbada

Qualquer ruído é uma ponta afiada

A atormentar e enfurecer a animália sem culhões

A fazê-lo arranhar as paredes, uivar palavrões.

Foram as minhas garras, meus desejos nocivos

Que, ao menor convite da besta, ao menor bálsamo lascivo,

Feriram o corpo do Deus, que quis trazer-me no regaço,

Foi a minha traição que martelou os pregos e lhe fez rechaço.

 

Se ao menos um pouco silenciassem, emudecessem

Os barulhos que este século faz.

Parasse um instante a culpa de berrar, de pesar

Mas só faz silêncio o sufocamento da minha antiga paz.

 

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4 comentários sobre “Confissão

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