Convite (carta aos poetas e demais escritores)

Carta aberta a todos os poetas e demais escritores que a puderem ler:

Posso, no decorrer desta carta, cometer vários erros gramaticais, mas, garanto, me esforço para não fazê-lo. Posso errar a concordância das palavras, como também posso dizer coisas que alguém, não sei quem, facilmente desmentiria, mas garanto, estou me esforçando para não fazê-lo.

Peço encarecidamente que conheçam o mínimo de poetas possíveis para entender o que é poesia (coisa que quase ninguém conseguiu, mas muitos tentaram fervorosamente, de todo coração e chegaram muito perto da compreensão).  Quando comecei a ler poesia, conheci Drummond e Quintana. Caminho, lentamente, vergonhosamente, até ter capacidade de chegar a Atenas e compreender sua cultura. Não quero que as referências de meus sobrinhos e  filhos sejam poetas ”transforma (dores)”, ou palavras espalhadas numa folha sem contexto algum. 

Comparar também o tipo de escrita ”livre” com autores famosos que se utilizavam desse recurso como Manuel Bandeira ou, mais recente, Leminski, é como dizer ”Se nem Jesus agradou…”, ou seja, uma desculpa esdrúxula, baixa e desprezível. É como não ir à Igreja porque lá há muitos pecadores, ou seja, é olhar tendenciosamente para as coisas a fim de justificar a própria incapacidade.

Talvez por falta de boas influências ou de aprofundamento na língua portuguesa, não se procura mais transmitir um sentimento profundo, simples, cativante. É falta de empatia não conseguir fazer  com que o outro sinta o que há de bom ou de ruim na experiência de viver, movimentos cuidadosos e que os interlocutores não notaram e nem notarão enquanto os novos escritores se preocuparem apenas em compartilhar suas dores de barriga. E, mesmo uma dor de barriga cuidadosamente descrita, faz o leitor sentir ele próprio desconforto abdominal.

Não me prenderei a discutir os motivos da falta de qualidade na escrita de poesias, das rimas pobres, das adjetivações rasas, da falta de sentimento que os versos demonstram. Não peço que se espelhem em meus medíocres escritos, claro que não,  mas em obras grandes que desafiam a nossa percepção da realidade. Não estou usando a mim como referência, repito, mas indiscutivelmente procurarei alcançar os mestres.

Se anos atrás era natural que os escritores, que agora nos servem como referência, tivessem grandes influências culturais, conhecimentos em diversas áreas e de idiomas, hoje, tal nível intelectual deve ser alcançado com esforço e disciplina, virtudes valiosas que não são mais colocadas na papinha de neném.

O tempo, sabe-se muito bem, é precioso e escasso, então, meu amigo, não gaste suas mãos, lápis, reputação e disposição escrevendo apenas trocadilhos e hai cais pouco criativos. Não se conforme enquanto um rascunho seu não possa ser confundido com um rascunho de um grande escritor.

Afinal, o que é ser um grande escritor? É desafiar a capacidade de seus leitores de seguir o caminho feito até chegar à obra.

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9 comentários sobre “Convite (carta aos poetas e demais escritores)

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