Monólogo do medo

minha mãe diz que sou muito medrosa, mas eu não fico chateada. ela não consegue enxergar as aranhinhas e aranhonas que andam em volta do meu corpo. é por isso que não consigo esbravejar de volta quando todo mundo começa a dizer que preciso desencanar. uma dessas bem peludas entra logo na minha boca quando vou me defender. aí engasgo.

não bebo, apesar de que comecei a achar que devia tomar uns goles pra ter mais coragem. as vezes a rua fica turva, mole, o asfalto derrete e escorre e eu continuo andando, medo.
não sei por qual motivo temos olhos, eu dispenso os meus. são delatores do meu pavor.
quando chego em casa e esparramo meus membros na cama, a sensação é que a qualquer momento tudo irá se desprender do meu tronco. haveria uma hemorragia, mas não acho o sangue nojento ou aterrorizante, nem nutro uma simpatia ou interesse. é um vermelho indiferente. se a água fosse vermelha como o sangue, eu nem notaria.
preciso usar muletas, as vezes tenho a sensação de que vou desmaiar e, se eu desmaiasse, não precisariam fazer um teatro, seria só me deixar ali descansando. isso não acontece. algumas pessoas realmente se importam, são mesmo capazes de se sacrificarem pelas outras. e ninguém gosta de medrosos. podem entregar suas crianças por alguém valente, mas desprezam o covarde e pisam nele.
ter medo não produz nada além de mais medo, que no começo era prudência e depois insegurança. fui gostando do estado sólido e estático do medo, do conforto da falta de ação, mas do excesso de reação.
aprendi a ter olhos rapidos e ouvidos aguçados. quem foi que abriu o portão? e a geladeira?
quando todos saem e eu fico sozinha em casa, me movimento como rufos de um tambor a qualquer expiração do vento em volta do lugar onde vivo, que as vezes é jaula, as vezes é zona de conforto e segurança
não consegui sair com mais ninguém, pois da primeira vez, eu nao tinha medo, mas tive que voltar correndo e aos berros para dentro de mim quando repentinamente o solo começou a desabar, naquele colo foi surgiram espinhos.
no quarto a noite o escuro não me respeita e insiste em brincar com luzes formando perfis e sombras ao meu redor. durmo com medo e tenho pesadelos.
se ao menos eu não tivesse medo de ligar para alguém de madrugada, receio de parecer invasiva, impulsiva, descontrolada e medrosa.
ter medo não tem justificativa, está tudo dentro, dentro, dentro… não está gritando, mas sussurrando, está soprando que não é mais um monstro, um inimigo, mas um amigo fiel, companheiro, inseparável. que não é pra eu ter medo de estar só, pois eu tenho o medo que nunca me deixa ficar com mais ninguem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s