Urano

Fomos tomar chocolate quente no café proximo a praça central como uma desculpa para depois espontaneamente nos escondermos no banheiro publico que o Junior tinha arrombado da ultima vez que passamos por lá e ele decidiu ser um bom lugar para uns amassos. Não achei romantico mas de alguma maneira animador. Estavamos na direção do comodo quando vimos os rojões no céu. 

Era nove de setembro, domingo a noite sem nenhum motivo aparente para a cidade comemorar senão um jogo de futebol que havia acontecido a tarde. De repente acendeu-se uma luz na parede por onde iamos e podia-se ler “Te amo, Luisa” e proximo o namorado da Luisa segurando um buquê de flores.

A homenageada fingiu ficar surpresa mas eu sabia, desde meus quinze e os quatorze dela, que nada mais a comoveria. Foi num sabado de manha que acharam o primeiro namorado dessa menina morto com um lençol no pescoço e um poema dedicado a ela na comoda. Era um ciumento louco e quis convencer sua amada de que ninguém jamais a amaria como ele amou e o método funcionou até dez anos depois quando o homem com quem Luisa viria a se casar pediu sua mão com um anel que era de sua bisavó judia. 

Toda vez que eu via os filhos de Luisa me lembrava daquele banheirinho e quase que podia sentir o cheiro do perfume doce de Junior, que durou na minha história até aquele dia frio de chocolates, beijos molhados e declaração de amor.

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Diogo não sabia lidar com Tainara além de não saber lidar com tantas outras mulheres aparecidas em seu caminh. E não o sabia porque nunca alguém o havia amado tão sincermente como ela agora amava ou como todas as outras o juraram amar. A menina da vez não era inocente como pensavam seus pais mas mantinha uma pureza de coração que permitia que se sacrificasse sem grande soberba. 

Não foi por falta de consideração ter tomado a decisão de anunciar na quarta feira a tarde da semana em que completariam sete meses desde o primeiro encontro que ela queria terminar aquilo que tinham. Foi menos dificil para ela anunciar do que para ele aceitar já que faziam dois exatos meses que estava determinado a dedicar-se apenas a ela. 

Ninguém poderia culpar algum dos dois porque Tainara tinha esvaziado sua reserva de paciencia e dedicação enquanto ele, ao menor estresse ou cansaço da companheira, ao inves de faze-la sentir como se fosse a unica mulher importante na terra, a deixava sozinha com seu desconforto. Esse foi seu erro maior pois de tanta convivencia a menina se acostumou com os maus sentimentos e passou a preferi-los ao amante. 

Depois de alguns meses Diogo se acostumou com a ausencia de sua ex companheira em sua vida e aprendeu a lição de que as mulheres são amadas no cuidado, mas também lembrou-se de quem era e fez uma divida de dois mil reais em  uma crise de quinze dias de corpos femininos ao seu dispor por algumas poucas horas. 
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 A lanchonete do Eme não ficava em um lugar muito estrategico porque o movimento se concentrava na rua principal e apesar disso o lugar vivia lotado por pessoas atraidas pelos pasteis de massa fina e recheio generoso que a mãe do proprietário fazia. 

 Era um dia de semana na hora do almoço quando pediram dois pasteis e uma coca ks uma mulher quase velha e uma criança quase adolescente. É dificil dizer algo assim mas avó e neta causavam pena ou repulsa pela sua aparencia tendo ambas muitos pelos, mais notáveis no rosto, e uma postura aparentemente incomoda quando se sentavam. Mastigavam no mesmo ritmo lento e entediante, em silencio, como se aquela fosse a ultima e a pior refeição que fariam. Os lábios da mulher eram grandes e se movimentavam exageradamente a cada mastigada enquanto o da menina fazia movimentos quase uniformes em linha reta vertical. 

 Por um instante aquele estabelecimento se tornou uma animação com personagens comuns e exóticos contracenando e aquelas duas mulheres comendo seus pasteis eram uma critica social a pessoas exaustas da rotina quando na verdade aquele dia devia ter sido muito especial para aquela menininha raquitica e esguia. 

 Quando elas foram embora o ambiente voltou ao normal, colorido amadoramente e impregnado pelo cheiro de óleo queimado pelos deliciosos pasteis.

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